É verão e no Uruguai todos os caminhos levam as praias do leste, um burburinho gostoso de dias longos e quentes.
Todo mundo tem seu rincón preferido de sol e mar nesse pedaço que cobre a costa uruguaia até Rocha, na minha família La Paloma ganha com folga o título de melhor destino e memórias veraniegas.
Para o turista de fora, Punta del Este indiscutivelmente sempre foi a estrela da casa, para o dinheiro (alguns diriam economia turística) e adinheirados Punta também é hors concours.
Em janeiro a programação da tv local muda de cenário, há programas inteiros exibidos diretamente do balneário famoso, um sem fim de inutilidades e personalidades - em sua maioria argentinas - desfilando diariamente na pantalla do cidadão médio.
Meu entusiasmo vendo tv em janeiro hehe...
As festas, as mansões dos famosos, os corpos ditos perfeitos e bronzeados. Novos amores e desamores, toda sorte de chusmeríos, como são chamadas as fofocas no idioma rioplatense. Os lançamentos e eventos de moda, gastronomia e business, todos os must go da temporada.
Me aburre. Morro de preguiça. Zero disposição para esse jogo de bate cabelo e carão, de todo mundo aparentando ser mais rico, bonito e interessante para ornar com o padrão.
E ainda tem o trânsito intenso na cidade, três vidas esperando para ir de um lado a outro. Ah, cancela, não é pra mim / nem parece Uruguai, levei um tempo só enxergando essa parte e até nutrindo um ranço de Punta no alto verão, coitada hehe.
Hoje, não descarto mudar para Punta del Este. Pois é, ir morar lá, menina. De janeiro a janeiro. E o que mudou? Te asseguro que não ganhamos na loteria, os programas continuam mostrando estupidezes e o trânsito segue lento no primeiro mês de cada ano.
Mudou que eu encontrei outra Punta que vive em paralelo a epopéia da temporada.
Uma Punta que oferece arte e os entardeceres mais bonitos que já vi. Uma Punta com destinos vizinhos cheios de interessância, serras verdes e místicas, quilômetros de mar e areia em estado bruto. Calmaria e bonitezas que tocam meu corazón.
Nessa Punta que eu escolhi amar, fica um dos museus que mais gosto em todo Uruguai, o Museu Rallí. O acervo é incrível e a entrada é gratuita, impossível resistir.
É um museu que vale a pena até para quem diz que não gosta de museu, sério.
A casa foi construída especialmente para funcionar como museu e conta com exposições permanentes de artistas latino americanos contemporâneos, tem obras do Vilaró e Botero, por exemplo, e artistas de outros cantos do mundo, dentre estes há uma inusitada coleção do Salvador Dalí.
Recentemente, numa viagem pela Catalunha, fizemos a rota do Salvador Dalí, visitamos o museu do artista em Figueres e também a cidade de Cadaqués onde ele viveu, um pueblito de casas brancas em meios as montanhas e de cara para o mar.
Turistas do mundo inteiro percorrem esses caminhos em busca da arte surrealista desse gênio excêntrico e audaz. Foi uma experiência fantástica ver tudo isso de perto e realçou ainda mais aquele primeiro contato com a obra do Dalí no Uruguai, disponível ali a poucas horas de casa e sem nenhum custo adicional.
Vi com infinita tranquilidade toda a coleção do Museu Rallí, retornando em pleno janeiro pude contar que dividia um dos pátios de esculturas com somente outros 3 turistas.
Para além do meu conforto de não precisar me esticar toda para enxergar as obras e esquivar de 27 câmeras ao mesmo tempo, veio uma inquietude de não entender como o lugar estava praticamente vazio. Vazio. Com a cidade pipocando de turistas. Também não encontrei muita gente na Fundação Atchugarry, outra atração belíssima e gratuita.
Já a Casapueblo que é fantástica e merece todas - e mais! - visitas, vive lotada no por do sol com transmissões ao vivo no Instagram para quem buscar sua geolocalização e hashtag gratidão de segunda a segunda, o tal do must go que fica bonito na foto e rende likes. A entrada custa 10 dólares (muito bem pagos, inclusive).
Não tem certo ou errado nem tem que ver tudo, mas a gente anda fazendo turismo de um jeito esquisito, vamo'combinar.
O Museu Rallí é uma entidade privada sem fins de lucro, fundada por um banqueiro aposentado e colecionador, o projeto em Punta foi o primeiro dos 5 museus ao redor do mundo (no Chile, Israel e Espanha).
Não aceitam doações ou subsídios de terceiros e não têm nenhuma atividade comercial em paralelo, por isso não vemos livrarias, cafés ou lojinhas no local. O propósito é única e exclusivamente a difusão da arte. Eu jamais saberei até que ponto é altruísmo, não confio em bancos nem banqueiros, desculpa hehe, mas a casa de Punta del Este é um pequeno tesouro de arte e beleza aberto ao público em geral, o passeio é uma delícia.
Agora em fevereiro funciona de terça a domingo das 17h as 21h (anoitece tarde nessa época), em março já muda o horário para 14h às 18h. Consulte aqui outros meses.
Abraço e boas férias! <3
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